terça-feira, 22 de junho de 2010

Tragédia e Caridade


Nos momentos mais difíceis da vida, somos tomados por um sentimento de compaixão pela dor do semelhante. Por alguns momentos, ao menos, boa parte da humanidade deixa de ser egoísta e a maioria acaba sendo tocada pelas tragédias.

A solidariedade nos envolve e somos levados, seja por um sentimento de verdadeira caridade ou simplesmente pela promoção da ação solidária, a ajudar aqueles que estão sofrendo. Abrimos o armário, doamos roupas, lençóis, mantimentos, água, remédio, etc. Tudo fazemos. Para muitos um grande prazer de servir, de ser útil, de ajudar os menos favorecidos. Para outros, uma obrigação social, uma resposta que precisa dar para serem inseridos no grupo dos "caridosos".

Mas o que é a caridade? Será que ela precisa se manifestar apenas nos momentos de tragédia? Recorrremos Paulo, I Coríntios, cap XIII, versículos de 1 a 13):

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine". E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria. A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; não trata com leviandade; não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade. Mas a maior destas é a caridade"

Observemos o que o apóstolo dos Gentios nos convida a refletir. Para agir com caridade, não importa o ter, mas o ser. Ser justo, ser honesto, ser ético, ser bom... Não adianda doar o que se tem, se o que muitos doam nasce da obrigação de servir. A verdadeira caridade nasce do despreendimento do coração, da oração e da fé transformada em ação, mesmo que não se tenha nada de material para oferecer.

É claro que nesses momentos de dor, a caridade material se manisfesta em nós e somos convidados a exercer o desapego dos bens que as traças consomem em nossos armários. E isso é bom, também. Mas, o que tiramos dessa tragédia que se abateu sobre Alagoas e Pernambuco, provocada pelas chuvas, é que a caridade que Deus espera que nós façamos nasce do desapego aos vícios que nos impedem de sermos caridosos todos os dias da vida, independente de esperarmos pelas tragédias para nos sentirmos úteis ao próximo e de sermos solidários.

Que sejamos mais amigos, mais honestos, menos egoístas, mais solidários, menos orgulhosos, mais tolerantes, menos avarentos, mais éticos para com todos e em todas as situações da vida. Assim, veremos nascer em nossos corações, por meio dos nossos atos, que a caridade é muito maior que as "esmolas sociais" que muitas vezes damos, como uma forma de livrar nossas consciências da culpa.

3 comentários:

  1. Fernando Antonio de Barros Lins24 de junho de 2010 19:33

    Acredito que,as tragédias são em si mesmo os sinais de que devemos nos conscientizar sobre o amor ao próximo e, para amar ao próximo necessário é,que façamos em continuidade um estudo sobre nós mesmos, o que podemos modificar no dia-a-dia, haja vista ser imprescindível conhecermos a nós mesmos,para que os atos de caridade não sejam sinalizados somente com as trajédias que acontecem aos nossos irmãos, mas sim, um ato contínuo.

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  2. Muito provável tenha sido no contexto dos versos de Paulo a inspiração para o sentido do "fora da caridade não há salvação", de Kardec. A caridade como um ato tão inevitável como o da respiração. Um movimento tão presente como o das ondas que, incansáveis, jamais abandonam o encontro do mar com a praia. A caridade como sinônimo de solidariedade.
    Solidariedade: "Condição grupal resultante da comunhão de atitudes e sentimentos, de modo a constituir o grupo unidade sólida, capaz de resistir às forças exteriores e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face da oposição vinda de fora". (Michaelis)
    Eis a questão; "comunhão de atitudes e sentimentos" e, ainda mais, "condição grupal". Aí o desafio da vida em sociedade, da manifestação na cena social da condição interna do homem. É duro!
    Então, ao longo da história foi sempre menos complicado dar uma roupagem religiosa à caridade, estabelecer essa "comunhão" com Deus e instituir a categoria dos "carentes" como público-alvo capaz de diminuir a culpa que insiste em ocupar alguns cômodos de nossa consciência.
    Como niguém é de ferro, diante de uma tragédia coletiva os sentimentos mais legítimos de responsabilidade mútua falam de alguma forma. Desde as expressões "que horror!" desacompanhadas de qualquer ação, às imediatas atitudes de comprometimento com a realidade do outro, visto como o reflexo da própria pessoa.
    A cada oportunidade a vida nos convida a repensar nossas ideias e atitudes, e o faz hoje num contexto global, que envolve o homem e o ambiente.
    Parece que estamos diante de um tempo sintomático.
    Que sejamos solidários.

    Um abraço a todos,
    Jorge

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  3. Para eles, a expiação através da dor.
    Para nós, a expiação através do amor.

    Em todo lugar, através das mais distintas maneiras, repousa a oportunidade da reforma íntima.

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